terça-feira, 11 de agosto de 2009

Poema


Arte Poética

Palavras,
só palavras, nada mais
que a vã matéria, o seu sentido
eco de muitos ecos, repetido
reflexo de poderes tão irreais

como essas emoções graças às quais
terei de vez em quando pretendido
dizer um só segredo a um só ouvido
ciente de que nunca são iguais

os segredos e ouvidos que procuro
às cegas neste mar sempre obscuro
onde a voz desagua como um rio

sem nascente nem foz - apenas uma
incerta confidencia que se esfuma
e só foi minha enquanto me fugiu.

(Fernando Pinto do Amaral)

sábado, 8 de agosto de 2009

Fumar pode Matar.


sempre que pegava num cigarro (alguns por dia)
o maço em grandes letras advertia
fumar pode matar

aspirava o fumo com um lento e profundo prazer
e ouvia a eterna ladainha da mulher
fumar pode matar

expelia o fumo demoradamente
e sopravam-lhe do lado de trás e da frente
fumar pode matar

sacudia a cinza no cinzeiro de granito
e alguém lhe repetia o mesmo dito:
fumar pode matar

produzia espirais e nuvens de fumaça
e ouvia sempre vozes mais chatas do que a traça
fumar pode matar

é verdade que sentia uma garra a apanhar-lhe o pulmão
mas a garra maior era a daquela expressão
fumar pode matar

e voltava a acender um cigarro tranquilo
e a ver o maço de novo a adverti-lo
fumar pode matar

aspirava o fumo com redobrado prazer
e ouvia de novo a ladainha da mulher
fumar pode matar

expelia o fumo ainda mais demoradamente
e sopravam-lhe outra vez de lado de trás e da frente
fumar pode matar

sacudia a cinza no cinzeiro de granito
e alguém lhe repetia o mesmo dito
fumar pode matar

até que um dia a sogra caiu na mesma tolice
fez-lhe um grande sermão e concluindo disse
fumar pode matar

fumar pode matar sim nunca se esqueça
e ele pegou no cinzeiro e fodeu-lhe a cabeça
fumar pode matar

fuma ainda mais sobretudo quando se lembra do delito
ou quando olha para o cinzeiro de granito
fuma a dobrar quando sobrevem a tosse e o catarro
ou quando sente no pulmão alguma dor
mas sobretudo sobretudo não larga o cigarro
no dia do não fumador

Anthero Monteiro (inédito)

Hoje morreu Raul Solnado...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A Mulher Cão Paula Rego / José Fanha.


A MULHER CÃO
JOSÉ FANHA
(Sobre um quadro de Paula Rego)

Ela acendeu a brasa do fogão
anos e anos a fio.Esfregou o soalho
lavou a roupa e os vidros
da janela costurou bainhas
descosidas e levou toalhas a cheirar
a rosmaninho à senhora do andar
de cima.Foi ao quintal buscar hortelã
para a canja e adormeceu ao som
das gargalhadas felizes dos meninos
hoje já todos engenheiros
com a Graça do Senhor.Agora está atada ao côncavo
da terra por atilhos
grossos.Ladra á lua
e tudo nela
é carne e sangue.Morde a mão
e dança a valsa
sobre o chão confuso
de algum sonho diluído lá no longe
nos botões do maestro
do coreto aos domingos e feriados.Ela é grossa
e ladra á lua.
Sente o corpo a crepitar
e rasga o coração.Inesperadamente
entre coágulos de sangue
fala línguas
que nunca ninguém lhe ensinou.Está atada
à sangrenta forja
das gramáticas lunares e procura
uma palavra
um nome mesmo que obscuro
e difícil de entender.É uma mulher grossa
e no côncavo do corpo
fala línguas
sem sentido.Deixou secar os coentros
a salsa
e a hortelã.Chama-se cão
e ladra à lua.Vive atada
às chamas que a consomem.

José Fanha
(de “Marinheiro de outras luas”)

Caetano Veloso nasceu a 7 de Agosto de 1942.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009