sexta-feira, 24 de julho de 2009

Poema

E por vezes as noites duram meses

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.


David Mourão-Ferreira

Ourém é Portugal.



"...Termino dando os parabéns ao pai pela duradoura e maquiavélica estratégia de garantir o lugar ao filho, independentemente dos atropelos realizados pelo percurso para alcançar os objectivos. Só já falta eliminar um, e este não me parece difícil de executar! O tempo o dirá. Ou não.
(João Moura "Noticias de Ourém " de 24 de Julho de 2009).



E hás-de ficar convencido
Da afirmação consagrada
Quem tem telhados de vidro
Não deve andar à pedrada.


( Quadra de um velho fado de Amália "Lá porque tens cinco pedras" )

Simon Bolívar nasceu a 24 de Julho de 1783.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Amália "Fado Português" de José Régio

A poesia de José Régio.

Fado Português
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio
(1901-1969)

Estrada sem corrimão/David Mourão Ferreira