quarta-feira, 3 de junho de 2009

Otis Redding-Sitting on the dock of the bay.

Poema.

Poética Contraditória


Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.

Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.

Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heróica dos teus prantos.

Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.

António Quadros in, «Viagem Desconhecida»
Poema
Para um Amigo Tenho Sempre

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Em Cada Cem Pessoas.

Sabendo tudo mais que os outros:
- cinquenta e duas,

inseguras de cada passo:
⁃ quase todas as outras,

prontas a ajudar desde que isso não lhes tome muito tempo:
⁃ quarenta e nove, o que já não é mau,

sempre boas porque incapazes de ser outro modo:
⁃ quatro;
enfim, talvez cinco,

prontas a admirar sem inveja:
⁃ dezoito,

induzidas em erro por uma juventude, afinal tão efémera:
⁃ mais ou menos sessenta,

com quem não se brinca:
⁃ quarenta e quatro,

vivendo sempre angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
⁃ setenta e sete,

dotadas para serem felizes:
⁃ no máximo vinte e tal,

inofensivas quando sozinhas, mas selvagens quando em multidão:
⁃ isso, o melhor é não tentar saber mesmo aproximadamente,

prudentes depois do mal estar feito:
⁃ não mais do que antes,

não pedindo nada da vida excepto coisas:
⁃ trinta, mas preferia estar enganado,

encurvadas, sofridas, sem um lanterna que lhes ilumine as trevas:
⁃ mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,

justas:
⁃ pelo menos trinta e cinco, o que já não é mau,

mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
⁃ três,

dignas de compaixão:
⁃ noventa e nove,

mortais:
⁃ cem por cento, número que, de momento, não é possível mudar.


Wislawa Szymborska
Wislawa Szymborska

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

"Sobre as Minhas Mortes"

À medida que ia alinhando estas ideias,fui-me dando conta de que,para além da palavra morte,uma outra saltava como contraponto impertinente no cenário um pouco sombrio que ia esboçando:a palavra esperança.A dignidade do homem projecta-se no porvir e é por isso alimentada por esse sentimento inefável que os doutores da Igreja elevaram à categoria de virtude teologal.
Sempre gostei de pensar a doença como uma viagem,por vezes longa,atribulada,imprevisível na sua rota,mas sempre assoprada pela esperança.O papel do médico é fazer o que a deusa Atena fez a Ulisses,ou seja, assegurar que quem cuidamos chegue a casa são e salvo.a morte é o naufrágio, a derrota que nos custa,por vezes cegos de orgulho,a aceitar.Tantas vezes me vem à cabeça uma das lendas da nossa história que mais me impressionaram em menino,no tempo em que a história nos era ensinada como uma gesta gloriosa salpicada por um punhado de percalços. Refiro-me ao episódio de Duarte de Almeida na batalha de Toro,o bravo porta-estandarte que,decepados ambos os braços,segurou a bandeira com a boca até à cutilada final.
E a esperança não é apenas uma virtuosa pulsão do doente que tratamos;é muitas vezes um sentimento colectivo e solidário, uma espécie de incenso que perfuma as situações mais insólitas. Se a esperança é de facto a última a morrer, não podemos aceitar que seja assassinada pelo médico.Recordo aqui um tio, que me era particularmente querido,que acompanhei a fazer uma radiografia ao tórax por uma tosse e uma dor persistentes.A imagem revelou uma neoplasia do pulmão inoperável.Ele olhou para mim e perguntou-me em pânico:«-Estou condenado, não estou?»Eu respondi-lhe, porque não fui capaz de me esquivar:«-Provavelmente está,mas vamos dar luta!...»
Para mim, um dos aspectos mais negligenciados da bioética contemporânea é o problema da esperança, pois o modo como se cuida da esperança é uma das tarefas mais sensíveis no tempo de morrer,um equilíbrio de acrobata entre a verdade e a mentira,por vezes piedosa ,por vezes cobarde.É bom recordar que a medicina, ou melhor ainda, o cuidar de alguém,exige, além de saber e sensibilidade ,uma virtude surpreendentemente esquecida que é a coragem moral.

(Do livro "Sobre a Mão e Outros Ensaios" de João Lobo Antunes Professor Catedrático de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina de Lisboa).