segunda-feira, 6 de abril de 2009

Soneto de Amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas numa língua...,-unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois...Abre os teus olhos, minha Amada!
Enterra-os nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

José Régio, in 'Eros de Passagem'
( Poesia erótica contemporânea, Selecção de Eugénio de Andrade.)

Da condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sol nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'
(1937-1984)

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!


Que o meu caixão vá sobre um burro.
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro.


(Mário de Sá Carneiro -1890-1916-)

domingo, 5 de abril de 2009

A "Pomada"


Por mão amiga chegou cá a casa uma garrafa dum tinto de excepção. Produzido e engarrafado (meticulosamente e religiosamente ) desde há 13 anos por um grupo de Alentejanos (todos eles de boa cepa) este M.C.P. (Malta do Colhão Preto) é um néctar precioso que seduz qualquer um que respeite a Baco e a Dionísio..... Cá por mim já enturnei goela abaixo Barca Velha, Pera Manca, Incógnito....e outras pomadas que não têm "TOMATES" para este. Muita saúde e longa vida aos produtores.

sábado, 4 de abril de 2009

Figueira da Fóz (4de Abril de 2009 fim de tarde.)

Mais quadras de António Aleixo


Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que pareço.


Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Homen


Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis,
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito


(António Gedeão 1906-1997).